Cidade tem praias, história, arquitetura, cultura e boa gastronomia

 

A primeira capital do Brasil passou por períodos difíceis, de esquecimento. Ruas sujas, monumentos abandonados e prédios históricos aos pedaços afastaram muitos turistas, que, de Salvador, só recordavam do caminho do aeroporto em direção ao Litoral.

A situação tem mudado nos últimos anos. Investimentos no turismo que ultrapassam os R$ 300 milhões, entre verbas do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do Ministério do Turismo e da prefeitura de Salvador, estão dando um novo colorido à capital baiana. Inauguração de novos museus e espaços culturais, revitalização de quilômetros de orla e um calendário de eventos não focado unicamente no Carnaval estão atraindo novamente viajantes dispostos a encantar-se com tudo o que Salvador pode oferecer. A meta é chegar aos 10 milhões de turistas em 2020 – atualmente, a cidade recebe em torno de 8 milhões de visitantes por ano. A cidade de 3 milhões de habitantes reúne belezas naturais – são 50 quilômetros de praias –, história, cultura, arquitetura, culinária e folclore. Tudo isso embalado por um clima receptivo e de alto-astral que só estando por lá para entender – o famoso axé da Bahia. Está na hora de redescobrir Salvador.

 

Os encantos da primeira capital do Brasil

 

Passear pelas ruas de pedra, conhecer lugares que remontam à época do descobrimento – Salvador foi fundada em 1549 –, provar dos sabores apimentados da culinária baiana e conhecer algumas das igrejas mais famosas do Brasil. Vale a pena reservar ao menos uns dois dias de sua viagem para, literalmente, revirar o Centro Histórico de Salvador. Circule pelo Pelourinho e explore suas casas coloridas, muitas delas transformadas em restaurantes, barzinhos – alguns, cujos fundos têm uma vista privilegiada do mar da Baía de Todos os Santos, valem a visita – e lojas. Em uma parede, a foto de Michael Jackson demarca o local onde o Rei do Pop gravou o clipe They Don’t Care About Us, em 1996, acompanhado pelos tambores do Olodum.

— No Pelourinho, é onde mais me sinto próximo da África, conectado com meus ancestrais — resume o guia turístico local Zé Barreto.

E as referências culturais seguem em cada canto do Centro Histórico: a Igreja do Passo, cuja escadaria aparece no filme O Pagador de Promessas (1962) – por sinal, reaberta recentemente após restauração –, a ladeira que Vadinho, personagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos, da obra de Jorge Amado, percorre nu, de braços dados com Flor, e por aí afora.

Coloque sapatos confortáveis e não escorregadios – não é fácil caminhar pelas ladeiras de pedra. Dedique um tempo para parar, sentar em algum barzinho e observar os moradores das imediações. Com roupas e acessórios coloridos, cheios de malemolência, também eles parecem saídos da obra de Jorge Amado ou, mais recentemente, de filmes como Ó Paí, Ó(2007).

 

O melhor banho de mar

 

Fábio Marconi / Salvador Destination
Fábio Marconi / Salvador Destination

Ao lado do Farol da Barra – outro ícone soteropolitano e que vale a pena ser conhecido –, uma praia com águas calmas proporciona, garantem os locais, o melhor banho de mar de Salvador. Vá durante a semana, já que aos sábados e domingos o local fica lotado.

 

Culinária, dança e religião

 

Para almoçar, se o objetivo é mergulhar na gastronomia regional, a dica é o restaurante do Senac Pelourinho (Largo do Pelourinho, 13), um bufê com dezenas de pratos da culinária baiana – vá com calma se o seu estômago não é dos mais fortes. Na hora das compras, não faltam lojas de souvenires espalhadas pelo Centro, mas o local com os preços mais em conta, e que vale a pena a visita, é o Mercado Modelo. Camisetas lindas e coloridas, itens de artesanato e instrumentos musicais fazem a alegria dos turistas. Aviso: não se esqueça de que o berimbau será difícil de transportar no avião.

Divulgação / Divulgação
Igreja e Convento de São FranciscoDivulgação / Divulgação

Próximo ao Mercado, o famoso Elevador Lacerda também vale a experiência. Para quem não sabe, não é só para turista passear. É meio de locomoção para os soteropolitanos, conectando a Cidade Baixa à Cidade Alta. A passagem custa R$ 0,15 e a “viagem” dura cerca de 30 segundos. Tem 73 metros de altura e, para a tristeza dos visitantes, não é panorâmico.

— Se fosse, muitos soteropolitanos não usariam, com medo da altura — garante uma moradora que ouvia nosso papo de turista.

Em algum momento de seu passeio, encaixe uma ida à Igreja e Convento de São Francisco, e confira o barroco levado às suas últimas consequências – é considerada uma das sete maravilhas de origem portuguesa do mundo. (A igreja fica no Largo do Cruzeiro de São Francisco, s/n° – para visitação, há uma cobrança de R$ 5). Construída no início do século 18, seu interior dourado e extremamente trabalhado é de ficar boquiaberto. Uma ostentação que não combina com a simplicidade de São Francisco, mas que tem explicação: atrair para a paróquia a aristocracia da época, que faria as mais polpudas doações para a Igreja.

À noite, uma dica é conferir o Balé Folclórico da Bahia, com espetáculos de segunda-feira a sábado, às 20h, no Teatro Miguel Santana (Rua Gregório de Matos, 49 – ingressos a R$ 60). Ao dar uma olhada no programa, pode parecer aquela típica atração para turista ver, com apresentações de capoeira, samba de roda, referências ao candomblé e por aí afora. Mas a vibração dos bailarinos, as coreografias vigorosas e o excelente grupo que toca ao vivo, com vocalistas poderosos, fazem do espetáculo um show inesquecível. Os 50 minutos passam voando.

 

Para celebrar, a Casa do Carnaval

 

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Casa do Carnaval da BahiaDivulgação / Divulgação

Inaugurada em fevereiro deste ano, a Casa do Carnaval da Bahia (Praça Ramos de Queiroz, s/nº, Centro Histórico – visitação de terça a domingo, das 11h às 19h, com ingressos a R$ 30) é um local com jeito de festa. Colorido e tecnológico, o museu conta de maneira criativa a história do Carnaval na Bahia. Depoimentos de artistas, figurinos originais, música, tudo torna o passeio interessante até para quem não curte tanto a Festa de Momo. Além dos pavimentos com diversas atrações, há um terraço com uma vista incrível para a Baía de Todos os Santos. Mas é nas salas de cinema que a “magia” acontece: com acessórios para o vestuário e instrumentos musicais, o visitante é convidado a dançar coreografias de músicas que marcaram o Carnaval da Bahia. No escurinho, no final da experiência, até gringo de cintura dura se solta!

 

No Rio Vermelho, uma linda história de amor

 

Fábio Marconi / Salvador Destination
As ruas do Rio VermelhoFábio Marconi / Salvador Destination

Rio Vermelho é um bairro charmoso, com opções de lazer, orla revitalizada e vida noturna. Vale a pena visitar a Vila Caramuru, com diversas opções gastronômicas em um ambiente bacana. Mas o que torna a ida ao bairro obrigatória é uma casa situada na Rua Alagoinhas, 33. Transformada em museu em 2014, a Casa do Rio Vermelho (visitação de terça a domingo, das 10h às 17h, com ingressos a R$ 20) foi o local onde os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai viveram durante 37 anos. Comprada em 1960, com os direitos da venda de Gabriela, Cravo e Canela para o cinema, ela transborda amor. Uma emoção que contagia visitantes, principalmente admiradores da obra de Jorge e Zélia.

 Cada cômodo conta um pouco da história do casal. A casa se mantém muito parecida e tem objetos da época de seus donos. Há memórias claras dos visitantes ilustres que circulavam por lá, como Pablo Neruda, Sartre, Simone de Beauvoir, Dorival Caymmi e Roman Polanski. Como dizia Jorge, “se for de paz, pode entrar”. Por todos os ambientes, destacam-se os azulejos personalizados pelo artista plástico Carybé, que homenageiam os orixás de Jorge e Zélia, Oxóssi e Oxum. Em um dos ambientes, é possível conferir algumas das cartas que Jorge e Zélia trocaram com personalidades do mundo artístico, políticos e entre si.

Uma das preciosidades é escrita pelo gaúcho Erico Verissimo ao “Velho Jorge”. Diz um trecho: “Já comecei a entregar ao Bertaso os originais da terceira parte de O Tempo e o Vento. Terá de aparecer em três volumes, por causa do número de páginas (1000), pois o preço dum único volume seria insuportável para o comprador. Há 10 anos que esse livro me chateia, me preocupa, muda a minha vida. Devo a ele a ansiedade que determinou a alta da minha pressão arterial, que por sua vez originou o acidente cardíaco”.

 

Lis Aline Silveira / Agencia RBS
Banquinhos de azulejoLis Aline Silveira / Agencia RBS

No amplo quintal, mais emoção: os banquinhos de azulejos onde o casal costumava sentar-se junto, e onde estão depositadas suas cinzas. Ali, Jorge deixou a homenagem derradeira para Zélia:
Sento-me contigo
no banco de azulejos
à sombra da mangueira,
esperando a noite chegar
para cobrir de estrelas teus cabelos.
Zélia de Euá envolva em lua,
dá-me tua mão, sorri teu sorriso,
me rejubilo no teu beijo,
laurel e recompensa.

 

Em Itapuã, bem mais do que uma tarde do Poetinha

 

Cheio de belezas naturais, o bairro de Itapuã guarda mais um tesouro aos visitantes: fragmentos da passagem de Vinicius de Moraes por terras baianas. Permeadas, logicamente, por uma história de amor, de um homem que amou “quantas vezes foram necessárias”. Atrás da praça que tem uma estátua em tamanho natural de Vinicius, fica a casa que ele construiu para viver um romance que durou sete anos. Hoje, o local abriga um restaurante e memorial em homenagem ao Poetinha, o Casa Di Vina (Rua Flamengo, 44). Serve uma culinária italiana sofisticada, com toques de baianidade, e tem proprietários sempre prontos a contar as histórias do lugar. Fica aberto diariamente para almoço e jantar, e, para o acesso ao memorial, não é cobrada taxa.

No final da década de 1960, Vinicius conheceu, no Rio de Janeiro, a atriz baiana Gessy Gesse, mulher de beleza exótica e cheia de atitude. Foram apresentados pela amiga em comum Maria Bethânia. Um amor arrebatador, que não levou em consideração a diferença de idade entre os dois, de 30 anos. Casaram-se em 1973 – o sétimo dos nove casamentos de Vinicius – em um ritual cigano, na Bahia, que teve como padrinhos Jorge Amado e Zélia Gattai. Vinicius construiu para a amada uma casa em Itapuã, de frente para o mar. Ali, foram compostos os versos da célebre Tarde em Itapuã. O relacionamento marcou uma fase mais introspectiva e espiritualizada de Vinicius, que conheceu o candomblé e artistas locais.

Mesmo assim, a casa de Itapuã fervilhava, com festas dia e noite, entra-e-sai de amigos da música. Na suíte do casal, uma banheira de frente para o mar – que existe até hoje – era o lugar preferido de Vinicius para compor. Conta Gessy, que ainda vive em Salvador e ajudou a criar o memorial, que ele recebia músicos e jornalistas envolto nas espumas de sua banheira. Festeiro, Vinicius fez uma festa de arromba para a inauguração da casa – o convite pode ser conferido no memorial. Quando aprontava, redimia-se espalhando declarações em forma de poesia para sua amada.

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